A educação pública paulista vive uma das maiores crises de sua história, e o mais grave é perceber que aqueles que sustentam diariamente as salas de aula estão sendo lentamente destruídos física e emocionalmente. O professor, antes reconhecido como agente de transformação social, hoje enfrenta uma realidade marcada por assédio moral, desrespeito, sobrecarga de trabalho e salários incompatíveis com a responsabilidade que carrega.
Os números revelam um cenário assustador: São Paulo registra cerca de 95 afastamentos diários de professores por questões de saúde mental. Não se trata apenas de cansaço. Estamos falando de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e crises emocionais provocadas por um sistema educacional que cobra metas inalcançáveis enquanto abandona seus profissionais à própria sorte.
A chamada “plataformização da educação” transformou o professor em operador de sistemas e alimentador de planilhas. A cada nova plataforma imposta, aumenta a pressão por resultados numéricos, relatórios e indicadores, enquanto diminuem o tempo de planejamento, a autonomia pedagógica e o espaço para o verdadeiro ato de ensinar. Em muitas escolas, faltam internet adequada, computadores e estrutura mínima, mas sobra cobrança.
Ao mesmo tempo, milhares de docentes da Categoria O vivem sob constante insegurança profissional. São educadores que enfrentam jornadas exaustivas sabendo que qualquer afastamento médico pode significar perda salarial, instabilidade e até exclusão do sistema. O medo de adoecer passou a ser tão cruel quanto a própria doença.
Outro fator devastador é o ambiente escolar tóxico que muitos professores enfrentam diariamente. Há profissionais sendo humilhados por gestores, pressionados publicamente, ameaçados por metas e tratados como culpados pelos fracassos estruturais da educação. Em diversas situações, o assédio moral parte justamente daqueles que deveriam oferecer suporte e liderança humanizada dentro das unidades escolares.
Somado a isso, cresce o desrespeito vindo de parte dos alunos e até das famílias. A autoridade pedagógica foi fragilizada, enquanto casos de violência, agressões verbais e exposições nas redes sociais tornam-se cada vez mais comuns. O professor deixou de se sentir protegido dentro do espaço onde deveria exercer sua missão com dignidade.
A sociedade precisa compreender que não existe educação de qualidade sem valorização humana do professor. Não há plataforma tecnológica capaz de substituir o acolhimento, o diálogo e a presença de um educador emocionalmente saudável. Enquanto governos insistirem em administrar escolas como empresas e professores como números estatísticos, o adoecimento continuará crescendo.
É urgente discutir saúde mental nas escolas, valorização salarial, redução da sobrecarga, respeito profissional e condições dignas de trabalho. O professor não pode continuar sendo tratado como máquina produtora de metas.
Quando um educador adoece, não é apenas um profissional que sofre. A escola inteira perde. Os alunos perdem. A sociedade perde. E o futuro também.
Joselino Torres e Silva
Jornalista e Educador
